Dez perguntas para o novo presidente do Ibravin, Dirceu Scottá.

O enólogo gaúcho Dirceu Scottá acaba de ser eleito presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Scottá, 41 anos, responsável pelos consagrados vinhos da vinícola Dal Pizzol, de Bento Gonçalves, também comanda a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) e já presidiu a Associação Brasileira de Enologia (ABE). Jovem liderança do setor, de perfil discreto e hábil negociador, o novo presidente do Ibravin tem pela frente diversos desafios, entre eles ampliar a competitvidade do vinho brasileiro nos mercados interno e externo e lutar pela redução da carga tributária excessiva que penaliza a atividade. O blog CAVE GUARNIER conversou, por e-mail, com Dirceu Scottá. A íntegra da entrevista a seguir.

 
1. A produção vitivinícola brasileira se estende, hoje, para mais de dez Estados brasileiros, além do seu berço tradicional, o Rio Grande do Sul. Como o Ibravin pretende ficar mais próximo de produtores baianos, cearenses, mineiros ou goianos, e apoiá-los em seu trabalho?

 

Mesmo tendo como fundadoras as principais instituições do Rio Grande do Sul e, como principal fonte de financiamento um fundo do Estado do RS, o Ibravin não levanta a bandeira “vinhos do Rio Grande do Sul” ou “vinhos gaúchos”, mas trabalha a marca “Vinhos do Brasil” buscando fortalecer a identidade nacional de um país produtor de vinhos. É preciso lembrar ainda que, nestes mais de 15 anos de existência, já obtivemos como fator de ordenamento do setor a publicação de alterações ou novas Leis e Decretos e dezenas de Instruções Normativas que atendem à toda vitivinicultura brasileira. Mais recentemente, os avanços que estamos conquistando para a obtenção do direito às pequenas empresas vinícolas aderirem ao Simples, luta que ainda não está concluída, são demonstrações de como podemos e estamos trabalhando por toda a vitivinicultura brasileira. Em contrapartida, também precisamos conhecer de forma mais aprofundada a produção dos demais estados, quais são suas demandas e potencialidades. Enxergamos o Cadastro Vitivinícola Nacional como o instrumento necessário para isso. No ano passado tivemos uma sinalização positiva do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, durante visita da ministra Katia Abreu à Expointer, quanto ao atendimento desta questão. Apesar disso, o Ibravin já desenvolve ações que contemplam vinícolas de outras estados, como os Circuito Brasileiro de Degustação, feiras e na própria divulgação da categoria sem distinção entre as empresas dos demais estados.

 

 

2. O Estado de Santa Catarina possui, hoje, um dos mais modernos e promissores pólos vitivinícolas do país, mas alguns produtores se queixam de que seus vinhos ainda recebem pouca atenção do Ibravin. Como atender a essa demanda dos vinicultores catarinenses?

O Ibravin está aberto ao diálogo com todos os envolvidos na cadeia produtiva vitivinícola brasileira. É preciso também que os vinicultores de outros estados fortaleçam suas entidades representativas para que tenham mais força e participem da tomada de decisões nos conselhos, comitês e outras instâncias internas do Ibravin. Como exemplo de que isso é possível, recentemente tivemos eleição dos novos coordenadores do Conselho Consultivo e foi eleito como coordenador o empresário paulista Claudio Goés, que representa toda a região produtora de São Paulo. Devemos lembrar ainda que a coordenação do Conselho Consultivo até o ano de 2015 era ocupada pelo representante da Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (Acavitis). A realização da Jornada da Viticultura de 2016 será em Santa Catarina, seguidamente estamos no Estado ouvindo as demandas dos produtores de uva e vinicultores. Enfim, como já adiantamos, estamos sempre dispostos ao diálogo, ao atendimento de necessidades específicas de cada região produtora e pensando no avanço de todo o setor. Precisamos também que os produtores busquem os canais adequados para isso, seja com o próprio Ibravin, sindicatos ou entidades que os representam.

 

 
3. O Estado do Rio Grande do Sul enfrenta dificuldades econômicas muito graves. Isso já afetou ou pode afetar o trabalho de promoção do vinho nacional realizado pelo Ibravin, dentro e fora do país?

Estamos cientes das dificuldades do Estado do Rio Grande do Sul e procuramos nos adaptar a este cenário. O trabalho do Ibravin é viabilizado com recursos do Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura (Fundovitis), oriundo de taxas pagas pelas vinícolas gaúchas. Vale destacar que o Fundovitis não recebe aportes de outras vinícolas ou entidades de fora do Rio Grande do Sul. Metade do que as vinícolas contribuem vai para o governo e a outra metade é destinada à promoção do vinho brasileiro, à articulação da cadeia produtiva e a outras ações realizadas ou apoiadas pelo Ibravin voltadas para o mercado interno. No mercado internacional, as ações são executadas pelo Ibravin em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), que faz o aporte de recursos e co-gestão do projeto Wines of Brasil. Assim, as ações no Exterior não tem vinculação direta com o Fundovitis. O Instituto também tem atuado no sentido de viabilizar outras fontes de receita, por meio de convênio com outras instituições. Desde 2014, por exemplo, está em andamento o Projeto Qualidade na Taça com o objetivo de qualificar a brigada de serviço (atendentes e proprietários de restaurantes) e o Programa Alimento Seguro (PAS-Uva para Processamento), que atua na base de produção da matéria-prima que conta com aporte de aproximadamente R$ 3 milhões pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Nesse último programa, também há parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

 

 
4. Há pelo menos 15 anos aprendemos a fazer vinhos de padrão internacional – principalmente espumantes. Mas, quem sabe disso? O setor ainda tem problemas de comunicação com o público consumidor. O que o Ibravin pode fazer para potencializar o marketing do vinho nacional, principalmente entre os consumidores brasileiros?

Na nossa avaliação, tivemos avanços significativos na forma como nos comunicamos e no próprio marketing do vinho brasileiro. Prova disso foram veiculações em programas de repercussão nacional em diversas emissoras de televisão, rádios, mídia impressa e meios online, além da continuidade no trabalho junto à imprensa especializada. Também tivemos uma exposição imensurável do setor num canal que nunca antes havíamos tido, que foi o destaque aos nossos vinhos na novela “Além do Tempo”, da Rede Globo. Cito outros programas, como “Globo Repórter”, “Jornal Nacional”, “Jornal Hoje”, “ Bem Estar” da mesma emissora, além da presença constante em matérias de outras emissoras como Record, SBT, Band. Em termos quantitativos, em 2015 tivemos um resultado de mídia espontânea que superou a marca de R$ 40 milhões, algo inédito para o setor. Temos a convicção de que esta exposição tem ajudado na construção da imagem de um novo perfil do vinho brasileiro e para nos aproximar do consumidor. Um outro indicador são os bons resultados que tivemos no passado. Até novembro, por exemplo, crescemos mais de 7% em vendas, com destaque para os espumantes, nos quais tivemos crescimento de mais de 16%, e nos vinhos finos, de mais de 4%. Num ano de PIB negativo e de retração na economia, o setor conseguiu um desempenho que, se não é excelente, é acima da grande maioria de outros segmentos. Tudo isso é resultado de um esforço de articulação e comunicação que vem sendo feito há alguns anos pelo Ibravin.

 

 

5. Uma das principais queixas dos consumidores é de que o vinho brasileiro é caro, quando comparado aos similares importados. Nossos vinhos são, realmente, mais caros do que os importados, quando comparamos produtos de uma mesma categoria? Se sim, por que isso ocorre?

Se compararmos com produtos da mesma categoria, penso que nossos vinhos têm preços competitivos. O problema é que muitos vinhos importados que chegam ao país já saem da origem com preços bem abaixo dos nossos. Vários países da União Européia têm incentivos gigantescos para fomento e viabilização da vitivinicultura, fazendo com que os preços praticados nos mercados mundiais sejam muito mais atraentes. Em nível de Mercosul também temos incentivos, custos e tributações muito menores do que no Brasil. Como todos sabem, isso é fruto da tributação excessiva que responde por mais de 50% do preço de uma garrafa. Outros gargalos,como problemas logísticos e a famigerada Substituição Tributária, fazem com que os outros estados sintam mais ainda esta diferença no bolso. Há outro fator que interfere no preço que é a escala. Somos pequenos produtores quando comparados com os maiores provedores de vinhos internacionais no mercado mundial, por isso temos custos maiores.

 

 
6. Desde o início deste ano, o IPI sobre o vinho brasileiro passou de R$ 0,73 para 10% do valor da garrafa. Um salto que, em alguns casos, pode superar os 1.000%. Não foi possível negociar um percentual mais baixo? Como isso deve afetar a produção e o consumo de vinhos no país?

O setor articulou junto ao Congresso Nacional um escalonamento para baixo das alíquotas de IPI. Conseguimos incluir no texto da Medida Provisória (MP) 690/2015 o estabelecimento de um teto máximo para a alíquota de IPI nos percentuais de 6% em 2016 e de 5% a partir de 2017. As alterações foram aprovadas na Câmara e no Senado. Entretanto, ao sancionar a MP, o governo vetou o teto máximo da alíquota, agindo diferentemente do que havia sido acordado entre os parlamentares e os setores produtivos. O setor vitivinícola foi surpreendido negativamente com o veto e agora busca reverter a situação mediante a rejeição deste veto pelo Congresso Nacional. Esperamos resolver essa questão o mais breve possível.

 

 
7. Temos, no Congresso Nacional, bancadas representativas de vários setores da economia, inclusive do agronegócio. Mas existe, realmente, um grupo de parlamentares identificado especialmente com o setor vitivinícola? O setor está bem representado, politicamente, nos parlamentos Federal e Estadual?

Temos parlamentares tanto no Congresso Nacional como na Assembleia gaúcha que trabalham em prol do setor vitivinícola. O ano de 2015 foi importante neste sentido porque tivemos a criação de frentes parlamentares tanto no Congresso como na Assembleia e que são espaços políticos importantes. Fazemos questão de citar alguns parlamentares, principalmente da bancada gaúcha em nível federal e também deputados estaduais que, desde que assumiram, se colocaram a disposição do setor. Na Assembleia, cito os deputados Elton Weber, Sérgio Turra, Alexande Postal e Adão Villaverde, entre outros, além dos secretários de Agricultura e Pecuária, Ernani Polo, e do Desenvolvimento Rural do RS, Tarcísio Minetto, que têm se esforçado para atender as nossas demandas junto ao governo estadual. Também destaco os parlamentares que foram protagonistas da criação da Frente Parlamentar de Defesa e Valorização da Produção Nacional de Uvas, Vinhos, Espumantes e Derivados: deputados Mauro Pereira, Afonso Hamm, Pepe Vargas, Jeronimo Goerge, Luis Carlos Heinze, Henrique Fontana e a senadora Ana Amélia Lemos, todos gaúchos,além do deputado catarinense Ronaldo Benedet. Os deputados Covatti Filho, Jerônimo Göergen, Pompeo de Mattos, José Stédile, Heitor Schuch e Renato Molling, todos da bancada gaúcha na Câmara, também estão neste grupo que se preocupa com o setor vitivinicola e conhecem a realidade da cadeia produtiva. Nos demais estados também temos deputados atuantes em prol do setor. Também destaco o grande apoio que temos da Frente Parlamentar da Agricultura. Cito ainda os senadores Humberto Costa, de Pernambuco, e José Pimental, do Ceará, fundamentais na negociação do IPI, bem como os senadores gaúchos Lasier Martins e Paulo Paim, que sempre apoiam e conhecem as demandas do setor. Durante a votação para inclusão do setor vinícola no Simples Nacional houve a apresentação de destaque que foi aprovada por ampla maioria, o que mostra que conseguimos e temos centenas de defensores da vitivinicultura no Congresso Nacional.

 

 

8. O Cadastro Vitícola, que reúne as informações do setor, já contempla a produção de vinhos de todo o país? O que pode ser melhorado?

O Ministério da Agricultura é quem encabeça a formação de um cadastro vinícola nacional (que trará informações sobre a produção de vinhos e outros produtos vitivinícolas), mas ainda não concluiu este trabalho. O cadastro vitícola do RS (que levanta informações sobre produção de uva) é feito com muita competência pela Embrapa Uva e Vinho, com apoio do Ibravin, e tem contribuído para melhora da produção de uva, com o mapeamento das zonas de produção no RS e, consequentemente, com a melhora de todos os produtos vitivinícolas. É claro que sempre há o que pode ser melhorado e cito a ampliação das áreas georreferenciadas e a sua extensão para todo o país como prioridade.

 

 
9. O espumante é, realmente, o melhor vinho brasileiro da atualidade? Por que nossos espumantes se destacam?

Podemos dizer que os espumantes estão entre nossos principais produtos devido a aspectos fundamentais como características do próprio terroir, qualidade da matéria-prima e, por consequência, do vinho base que dá origem aos espumantes. Temos particularidades de clima também que acabam sendo favoráveis para destacar nossos espumantes em relação aos demais países. Outro aspecto positivo é a competitividade do espumante brasileiro em relação aos importado e a consolidação deste produto como sinônimo de qualidade, tanto no Brasil quanto no Exterior. Recentemente o jornal francês Le Figaro destacou nossos espumantes, o que é muito importante, vindo da imprensa de um tradicional e importantíssimo país produtor. Também estamos elaborando vários vinhos de excelente qualidade. O que acontece com o Brasil acaba acontecendo em todos os países vitivinícolas. A diferença, se compararmos com outros países, é de que eles têm uma base de produção muito maior e, consequentemente, maior volume de vinhos ícones.

 

 
10. É correta a visão de que a Serra Gaúcha deve se concentrar na elaboração de vinhos espumantes e brancos, e deixar a produção de tintos para a Campanha, por exemplo?

Não concordo com esta visão. Tanto a Serra Gaúcha como a Campanha e outras regiões do Estado e do País elaboram ótimos vinhos tintos, brancos, rosés, espumantes e sucos de uva. São terroirs diferentes, com clima, solo, aspectos humanos e culturais diferentes, mas que têm potencialidades para elaborar ótimos vinhos, sejam tranquilos ou espumantes. Eu diria que a Campanha tem se destacado bastante na produção de tintos devido a algumas particularidades, como solo mais arenoso, menor incidência de chuva, entre outros itens. Mas é inegável que a Serra também elabora ótimos tintos, principalmente de variedades mais comerciais como a Merlot, Pinot Noir e outras menos conhecidas, como Teroldego e Ancelotta, que também se adaptaram muito bem à Serra. É fundamental também dizermos que outras regiões, como a Serra do Sudeste, o Planalto Catarinense, os Campos de Cima da Serra e o Vale do São Francisco também são exemplos de regiões vitivinícolas importantes para a diversidade, que é uma das marcas do vinho brasileiro. E ainda podemos pensar em assemblages de vinhos oriundos de diferentes regiões dentro do próprio Estado, originando grandes vinhos tintos.

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