Os 85 anos da Vinícola Aurora, um símbolo do Rio Grande do Sul

Crédito: Roali Majola

A Cooperativa Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, comemorou há pouco 85 anos de fundaçāo. Um bonita festa reuniu mais de 3 mil pessoas na sede da vinícola. Um livro e um vinho comemorativos foram lançados na ocasiāo.

O livro, do escritor e associado Remy Valduga, conta essa bonita saga, por meio de histórias, documentos antigos e lindas fotografias. E o vinho – um corte bordalês de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc – brinda a data em alto estilo. Já está pronto para beber, mas é um vinho de guarda, que deve evoluir pelos próximos dez anos.

 

Amor à primeira vista

 

Um pouco de nostalgia, agora. Recordo muito bem: eu era um jovem jornalista, no início dos anos 1980, quando fui pela primeira vez à Serra Gaúcha para fazer uma reportagem sobre vinhos. Não lembro mais qual era a pauta, mas sei que essa minha primeira incursão pelo mundo do vinho brasileiro foi à Cooperativa Vinícola Aurora.

Estão bem nítidos na minha memória os longos corredores escuros das caves subterrâneas, as enormes pipas vermelhas de madeira da cantina (hoje substituídas, em grande parte, por modernos tanques de inox refrigerados e por barricas de carvalho francês) e o aroma de vinho que impregnava o ambiente (cheiro de cantina, de que muita gente não gosta, mas que eu adoro).

Foi amor à primeira vista. Fiquei encantado com aquele mundo frio, úmido, de penumbra e silêncio, onde as leveduras cumpriam sua laboriosa missão na mais completa invisibilidade, e no qual o vinho, como que por mágica, nascia. A Aurora já era, então, a maior vinícola brasileira, com uma ampla gama de rótulos, e seus vinhos (Marcus James à frente) logo seriam exportados até mesmo para os Estados Unidos, e ganhariam medalhas em inúmeros concursos internacionais. Hoje, a Aurora é a mais premiada vinícola brasileira.

 

Reencontro com as origens italianas

 

Tive a certeza de que, a partir daquele dia, o vinho estaria, de uma maneira ou de outra, ligado à minha vida. Foi como se, ao penetrar naquele mundo subterrâneo de sombras e pedras, eu tivesse me reencontrado com minhas origens italianas, meio esquecidas pela vida urbana cosmopolita.

Vieram-me à mente lembranças de antepassados distantes que faziam seu vinhozinho de uva Isabel no porão de pedra de casinhas simples de madeira. Soube, naquele dia, que voltaria muitas vezes à Serra Gaúcha para provar seus vinhos e escrever sobre eles. O que, de fato aconteceu, ao longo das décadas seguintes, com maior ou menor regularidade, nos vários veículos de comunicação onde trabalhei.

 

Aprendendo a gostar de vinho

 

A verdade é que, depois de algumas experiências catastróficas com vinhos comuns de garrafão na adolescência, eu quase não bebia vinho naquela época. Só viria a me reconciliar com a bebida de Baco após os 20 e poucos anos de idade – por influência de amigos jornalistas mais velhos, com quem convivi na primeira metade da década de 1980 em Porto Alegre.

Alguns haviam vivido por algum tempo na Europa e retornaram com um bom conhecimento sobre vinhos. Foram eles que me apresentaram aos primeiros vinhos finos que bebi. Quase todos nacionais, da Serra Gaúcha. Porque vinho importado, nos anos 1980, era um luxo a que poucos privilegiados podiam ter acesso. Rótulos estrangeiros a preços acessíveis só chegariam legalmente ao mercado brasileiro a partir do início da década de 1990, com a liberação das importações promovida pelo governo Collor.

Bebíamos naquela época os modestos vinhos de umas poucas vinícolas gaúchas ou multinacionais instaladas no Rio Grande do Sul: Garibaldi, Salton, Rio-Grandense, Peterlongo, Château La Cave, Martini e Rossi, Chandon, Almadén e, claro, Aurora, a maior e com a mais completa linha de produtos – do humilde Sangue de Boi ao mais sofisticado (para a época) Conde de Foucauld.

 

Nomes estrangeiros e brasões medievais

 

Os rótulos, de um modo geral, exibiam nomes estrangeiros, títulos de nobreza, brasões medievais, nomes de regiões demarcadas europeias, e quase sempre aludiam à longa tradição vinícola do Velho Mundo. Rosés, brancos e suaves faziam muito sucesso então – mais do que os tintos. Ainda nada se sabia sobre o Paradoxo Francês, que, a partir dos anos 1990, transformaria os vinhos tintos em “remédio” para o coração e promoveria o aumento do seu consumo em detrimento do consumo de brancos

Por influência da indústria vinícola norte-americana, que desde o famoso Julgamento de Paris, em 1976, vinha se impondo mundialmente, os vinhos brasileiros já começavam a identificar com destaque em seus rótulos as variedades de uvas com as quais eram elaborados. Cabernet Franc e Riesling (Itálico) eram as cepas viníferas tinta e branca
mais populares. Afinamento de vinhos em barricas bordalesas de carvalho era coisa rara. Lembro bem do primeiro vinho nacional com passagem por carvalho que provei: o Marcus James, da Aurora. Estranhei bastante o aroma e o sabor – mas gostei.

 

Patrimônio cultural do Rio Grande do Sul

 

De lá para cá, a indústria brasileira de vinhos nāo parou de evoluir. E a Aurora acompanhou essa evolução. A cooperativa enfrentou momentos difíceis, quase sucumbiu às crises econômicas dos anos 1980, mas, com a união de seus mais de mil associados e a gestão profissional moderna que adotou, deu a volta por cima. Quitou uma grande dívida (contraída nos anos 1990, para evitar a sua dissoluçāo) com antecedência, no início deste ano, e hoje é este patrimônio empresarial e cultural que orgulha os gaúchos.

Para mim, que acompanhei esta história de perto nos últimos trinta anos, cada nova conquista da Aurora me emociona – de verdade. Quantas empresas brasileiras podem comemorar 85 anos de existência? Vinícolas, entāo, nem se fala: poucas, muito poucas realizaram esta façanha. Por isso, associados, colaboradores e dirigentes da Cooperativa Vinícola Aurora estāo todos de parabéns. Longa vida à Aurora!

 

Crédito: Roali Majola
Crédito: Roali Majola

 

 

 

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