A maior avaliação de vinhos de uma safra

A Avaliação Nacional de Vinhos, que acontece todos os anos em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, é provavelmente a maior degustação coletiva desta bebida no mundo. Mais de 800 pessoas participam do evento, organizado pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), que avalia os vinhos-base para espumantes, brancos e tintos da última safra.

Das mais de 300 amostras recolhidas pela comissão julgadora – composta por um time de altíssimo gabarito da enologia brasileira -, apenas 16 chegam à avaliação final e são analisadas por um grupo de 16 comentaristas (enólogos, sommeliers, jornalistas e celebridades) nacionais e estrangeiros. É a mais importante prova de vinhos brasileiros – e também uma grande festa.

 

O panorama visto do palco

Conheço gente que participou das 24 edições da Avaliação Nacional de Vinhos. Desde quando o evento reunia uma meia dúzia de gatos pingados até os dias atuais. Eu estive em cinco Avaliações. Na primeira vez, em 2011, sentei à mesa principal, juntamente com 15 outros degustadores-comentaristas – um “blend” bem equilibrado de experts e leigos (como é, na vida real, o mundo dos apreciadores de vinhos).

O panorama visto do palco me impressionou: quase 900 pessoas concentradas, em silêncio, degustando no mesmo timmig dos comentaristas amostras iguais, graças a uma logística impecável de serviço, executada em uma coreografia precisa por quase cem voluntários.

 

Uma grande surpresa

Em 2013, a ABE generosamente me distinguiu com o Troféu Vitis, concedido aos amigos do vinho, pelo meu trabalho em prol da vitivinicultura na mídia brasileira. A surpresa foi enorme. Quase morri do coração quando ouvi meu nome ser anunciado pela mestre de cerimônias. Não esperava por aquilo, e a emoção foi grande demais. Até hoje não lembro direito o que falei no meu agradecimento. Foi, sem dúvida, meu momento mais emocionante desde que me dedico à crônica do vinho.

Um ano depois, subi a Serra tranquilo, com a missão de cobrir o evento para o portal As Boas Coisas da Vida – onde eu escrevia sobre vinhos na época. Esperava por uma ANV sem sustos. Mas eis que fui surpreendido por um telefonema da ABE, na véspera da degustação: um dos comentaristas ficara retido em Paris por causa de uma greve de pilotos da Air France e não chegaria a tempo de cumprir sua missão. A ABE me convidava para substituir o colega.

Topei na hora, claro. Mais do que prestar um favor ao amigo Luciano Vian, presidente da ABE na época, foi uma honra para mim estar outra vez entre os felizardos 16 comentaristas da mesa principal (algo que nem eu sonho eu poderia almejar). E lá me fui para mais este desafio: degustar às cegas e comentar para mais de 800 pessoas a amostra de um vinho branco da cepa Riesling Itálico – que, vim a saber depois, fora elaborado pela Vinícola Salton.

 

A vez dos brancos

Gostei da amostra que me coube avaliar naquela manhã de sábado – por coincidência, da mesma casta que eu havia avaliado em minha primeira participação na ANV. O Riesling na minha taça tinha cor amarelo pálido, com reflexos esverdeados, média intensidade no olfato, com notas cítricas de casca de limão e flores brancas. Em boca, era fresco, com acidez marcante, notas de lima, maçã verde e final delicioso. Está tudo anotado na minha Moleskine.

Foi bom poder avaliar um branco, vinho que considero certeiro para o clima tropical do nosso país, porque pode ser bebido jovem e gelado. Um dos melhores produtos vinícolas que fazemos, mas, lamentavelmente, ainda muito subestimado. No meu comentário, lembrei que os vinhos brancos não têm os mesmos efeitos benéficos para o coração dos tintos, mas que alegram o espírito, nos dão prazer – o que também faz muito bem à saúde.

A Riesling Itálico é uma casta que teve papel importante na vitivinicultura brasileira. Já foi a branca emblemática da Serra Gaúcha, e ainda hoje é valiosa coadjuvante da Chardonnay e da Pinot Noir nos bons espumantes locais. Não tem a mesma complexidade aromática da uva Riesling Renano, com suas notas de fósforo ou pedra de isqueiro, mas é uma casta que precisa ser mais valorizada também na elaboração de brancos tranquilos. Minha nota foi 90.

 

Uma avaliação difícil

É sempre muito difícil avaliar vinhos recém-elaborados, os quais, em alguns casos, ainda estão nos tanques das vinícolas. Sobretudo porque esses vinhos ainda não estão prontos. Podem melhorar ou não com o passar do tempo.

Os brancos, que chegam ao mercado mais cedo, às vezes no mesmo ano da vindima, já estão praticamente em condições de consumo. Mas os tintos, que ainda passarão por afinamento em barricas de carvalho e repousarão por mais um ou dois anos em garrafas, geralmente estão bastante imaturos. Sobre os vinhos-base, que vão virar espumantes após uma segunda fermentação, ainda é mais difícil fazer análises e projeções – por isso a avaliação dessa categoria é reservada apenas aos enólogos do júri.

A verdade é que, a cada Avaliação Nacional de Vinhos, temos muitas surpresas – na maioria das vezes, boas. O clima, principalmente, pode nos dar uma grande safra de vinhos ou não. É assim na Serra Gaúcha ou em Bordeaux. A tecnologia moderna ajuda a compensar, em parte, as trapaças da meteorologia. Mas é nesta incerteza que reside a beleza do vinho.

 

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