O Concours Mondial de Bruxelles na Serra Gaúcha

O Hotel e Spa do Vinho, localizado no coração do Vale dos Vinhedos, um dos mais belos recantos da Serra Gaúcha, sediou, de 3 a 6 de abril, a 15a Edição do Concours Mondial de Bruxelles, organizado no Brasil pela revista Vinho Magazine. Durante três dias, um grupo de especialistas brasileiros, franceses, belgas, italianos e chilenos degustou mais de 180 vinhos e cerca de 200 destilados, e visitou vinhedos, vinícolas e destilarias da região. Uma equipe julgou os vinhos, e outra, os destilados.

Mais uma vez, o expressivo número de medalhas de Prata, Ouro e Grande Ouro concedidas aos vinhos espumantes, brancos, rosés, tintos (veja o quadro) e aos destilados produzidos no país confirmou a qualidade crescente da produção nacional – nos dois segmentos de bebidas. Como jurado do segmento vinho, me impressionaram particularmente os brancos e espumantes, embora tenha provado alguns tintos muito bons, sobretudo os elaborados com uvas Merlot e Syrah.

Mas, aproveitando este balanço do Concours Mondial de Bruxelles/Brasil 2017, gostaria de refletir um pouco sobre os concursos dos quais tenho participado como jurado. Muitos leitores me questionam sobre a organização, a validade (para vinícolas e consumidores) e até sobre a seriedade desses concursos. Então, vamos às considerações inicias sobre o tema (voltarei a ele oportunamente).

 

Ganhos de marketing

Acredito, sinceramente, que concursos são excelentes oportunidades para as vinícolas não apenas divulgarem sua produção perante a crítica nacional e internacional, como também para receberem um feedback abalizado sobre seus vinhos. Medalhas são uma decorrência natural dos acertos e, embora estejam um tanto banalizadas hoje em dia, sempre conferem status aos produtos e podem ajudar nas vendas.

O retorno de uma participação em concurso não pode ser medido objetivamente. Quando os vinhos são premiados com medalhas, há ganhos indiscutíveis de marketing, pois os produtos recebem um aval de um corpo de degustadores especializados, que pode (ou não) servir de orientação para consumidores iniciantes ou em dúvida sobre o que comprar (o mesmo ocorre com automóveis, livros ou filmes, não?). Os valores de inscrição de amostras são geralmente pequenos em relação ao retorno gratuito de mídia que uma premiação pode proporcionar. E, se não houver prêmios, também não haverá maiores prejuízos, porque os concursos sérios não divulgam os nomes dos vinhos que não são classificados.

 

Vinhos medianos se destacam

Vinhos medianos – e nem sempre os rótulos de alta gama – têm sido bem avaliados em concursos realizados aqui no país. Por quê? Talvez isso ocorra porque as vinícolas estejam mais interessadas em obter reconhecimento para seus vinhos destinados a um público mais amplo, e inscrevam um número maior de amostras desta linha. Ou porque pode ser muito mais interessante, do ponto de vista do departamento de marketing, ganhar uma medalha de ouro com um vinho médio do que uma medalha de prata com um rótulo premium. Não se pode esquecer que as degustações são às cegas, onde não existe influência da crítica especializada, do nome da vinícola ou do rótulo. E, nesses casos, surpresas podem acontecer…

Muitas vezes as vinícolas não inscrevem seus vinhos de alta gama em concursos porque existe – não sejamos ingênuos – a preocupação de ter um ícone avaliado com nota inferior a um mediano. Mas me parece que a principal razão para as cantinas inscreverem mais vinhos da faixa intermediária nos concursos é a obtenção de um aval de prestígio para vinhos produzidos em maior escala, que “rodam” mais nas lojas e supermercados. E, também, porque os ícones da casa (de pequena tiragem) geralmente já têm reconhecimento garantido e público cativo.

 

Os concursos são sérios?

Sempre me perguntam se todos os concursos de que participo como jurado são sérios e imparciais. Não posso falar pelos concursos que não conheço. Mas posso assegurar que os concursos dos quais tive a honra de participar até hoje são, sim, sérios e muito bem organizados, em conformidade com padrões internacionais.

Quanto a mim, sempre levei muito a sério o meu trabalho como jurado, em todos os concursos de que participei. E acredito que meus colegas de júri também.

Acrescentaria, contudo, que as avaliações dos concursos, apesar de válidas, não podem ser sacralizadas. Elas expressam a percepção de um determinado grupo em um determinado momento sobre produtos de uma determinada safra – que podem ser avaliados de modo diferente por outro júri em outro lugar e em outro ano. São uma referência, apenas, não uma sentença definitiva sobre um vinho. Cada enófilo deve beber o que mais lhe agrada, independentemente de pontos ou medalhas.

Mesmo assim, acho difícil negar que o consumidor, diante da diversidade de rótulos à venda, não olhe com mais atenção para os vinhos desconhecidos que trazem medalhas nos rótulos. Não é um fator decisivo para a compra, mas certamente funciona como uma referência a mais quando há pouca informação sobre um rótulo e as opções são muitas.

 

 

(Obrigado ao Paulo Greca pela fotos)

 

 

 

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