O lado produtor rural do homem de aço

Industrial de grande sucesso no setor metal-mecânico, o catarinense Raul Anselmo Randon também produz no Rio Grande do Sul maçãs, soja, trigo, leite, queijos, azeite e vinhos. Começou pequeno, no vinho, com um rótulo comemorativo elaborado pela vinícola Miolo – da qual tornou-se sócio. Mas pegou gosto pela vitivinicultura e agora já pensa em ter a própria cantina. Neste perfil, publicado pela revista Plant Project (número 4), de São Paulo, um pouco sobre a trajetória vitoriosa de Randon no agronegócio. E uma revelação: só não conseguiu ainda ganhar dinheiro com o vinho.

 

 
PROJETO RANDON

Por Irineu Guarnier Filho

 

 

Aos 87 anos, o industrial Raul Anselmo Randon cumpre, prazerosamente, uma rotina diária de trabalho que começa às 9h – quando chega à sede da holding que controla o conglomerado de empresas do setor metal-mecânico com seu sobrenome, no bairro Interlagos, em Caxias do Sul – e se estende até pouco depois das 17h, quando retorna ao convívio da esposa Nilva, dos filhos e netos.

Mas é a partir de quinta-feira que o premiado empreendedor da indústria metalúrgica brasileira se sente mais feliz. Nesse dia, Randon percorre cerca de 150 quilômetros através da verdejante Serra Gaúcha para chegar à Vacaria, principal município na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, onde está a sede do braço agropecuário do Grupo Randon, a Rasip Agro Pastoril S/A, empresa dedicada à produção de maçãs, uvas viníferas, azeitonas, suínos e lácteos, entre outros produtos.

Na tranquilidade luminosa dos Campos de Cima da Serra, a mil metros de altitude, cercado por araucárias e lavouras de soja e trigo, o industrial que começou sua carreira com 14 anos, trabalhando com o pai, Abramo, numa pequena ferraria familiar, e, depois, com o irmão mais velho, Hercílio, numa oficina mecânica, volta a ser o menino que ajudava a mãe Elisabetha a ordenhar vacas na colônia italiana do Rio Grande do Sul, nas primeiras décadas do século 20. Em meio aos pomares de macieiras, olivais e vinhedos da Rasip, ou conferindo a colheita de soja, milho ou trigo em sua propriedade particular de cinco mil hectares, o catarinense de Rio Bonito que virou Gaúcho Honorário (título concedido pelo grupo de comunicação RBS, em 1975) sente-se tão à vontade no ambiente agropastoril quanto entre forjas incandescentes e linhas de montagem de quipamentos rodoviários.

Mas, que ninguém se engane: a produção de maçãs premium, dos vinhos RAR (elaborados pela vinícola Miolo, de Bento Gonçalves), de azeite ou de queijo do tipo Grana Padano – menina dos olhos do “produtor rural” Raul Randon – não são hobbies de final de semana do empresário octogenário com mais tempo livre desde que transferiu a gestão executiva de sua holding para executivos profissionais. São atividades empresarias de grande escala, muito bem planejadas e executadas – e, principalmente, rentáveis. “Até hoje, só não ganhei dinheiro com o vinho”, confessa, timidamente, o “Homem de Aço” – um dos mais de cem títulos honoríficos e distinções com os quais foi homenageado em sua extensa carreira de sucessos (neste caso, pela Associação do Aço do Rio Grande do Sul, em 1977)

O reencontro de Randon com a agricultura, que esteve na base da economia colonial da Serra Gaúcha no início da imigração italiana, na segunda metade do século 19, se deu na década de 1970. Foi por essa época que, graças aos incentivos fiscais concedidos a empreendedores privados, implantou, juntamente com o irmão Hercílio e outros sócios, o primeiro projeto de reflorestamento, em Encruzilhada do Sul, com 20 mil pés de nogueiras pecã e citros.

Naquela época, praticamente toda a maçã consumida no Brasil era importada – principalmente da Argentina. Randon viu na pomicultura uma promissora oportunidade de negócio. “Maçã era uma fruta tão rara, e cara, que uma comadre levava de presente para a outra, nas visitas”, relembra. Como já conhecia bem a fria e alta região dos Campos de Cima da Serra desde os tempos em que dava “uns tirinhos de espingarda por lá”, durante caçadas de perdiz com os amigos, foi em Vacaria que decidiu implantar o primeiro pomar de macieiras da Rasip, em uma área de 240 hectares. O negócio deu tão certo que logo a Rasip viria a se transformar numa das principais empresas produtoras e exportadoras de maçãs do país – contribuindo, internamente, para que a maçã brasileira se convertesse em uma fruta de consumo popular

 

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Animado com as possibilidades de rentabilidade no agronegócio, o Midas da indústria automativa, que transforma em ouro tudo que toca, decidiu investir em outra atividade, carregada de nostalgia familiar: a produção leiteira (sua mãe comercializava “o leite de duas vaquinhas” de porta em porta, em Caxias do Sul, e o que não vendia transformava em queijo caseiro). Adquiriu animais de uma amigo fazendeiro, que andava desgostoso com o negócio deficitário, e decidiu que iria elaborar queijo, produto “bem mais rentável do que o leite”.

Mas, em se tratando de Raul Randon, que sempre primou pela excelência em tudo o que faz, o “seu” queijo não poderia ser qualquer queijo. Optou, por isso, em elaborar, com tecnologia europeia, o similar mais perfeito possível do milenar queijo italiano Grana Padano. Para isso, tratou, primeiramente, de melhorar o seu plantel de vacas leiteiras holandesas, importando 65 exemplares de alta linhagem dos Estados Unidos. “O desembarque das vacas de um Boeing da Varig, no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, foi um acontecimento muito noticiado no início dos 1980”, ri o empresário. Logo, Randon se tornaria conhecido por chefs e gourmets de todo o país mais como produtor de queijos nobres (ele também elabora o do tipo Parmezão) do que como fabricante de reboques, suspensões ou freios para caminhões.

A história do empresário Raul Randon é marcada por dois grandes incêndios, que o obrigaram a recomeçar praticamente do zero em duas atividades diferentes. Nos anos 1950, a oficina de motores em que trabalhava com o irmão mais velho pegou fogo – justamente durante a procissão de Nossa Senhora do Caravaggio, santa de sua devoção. O abatimento da família deu lugar a trabalhos redobrados para reerguerem o negócio. “Nossa Senhora do Caravaggio até nos fez um bem, porque, depois do incêndio, construímos uma oficina ainda maior”, comenta, bem-humorado.

Com a mesma resignação de quem, com o perdão do trocadilho, sabe que não adianta chorar pelo leite derramado, não faz muito tempo viu seu laticínio ser destruído por outro incêndio. O fogo consumiu dez mil peças (de 34 quilos cada) de queijo tipo Grana com até 18 meses de maturação. “Foi o maior foundue do mundo”, brinca Randon, não sem um suspiro melancólico. Funcionários da Rasip e familiares, sabendo de sua paixão pelos queijos pacientemente estocados, demoraram pelo menos três horas para lhe dar a notícia, temerosos por sua saúde.

Que nada. Superado o primeiro impacto, imediatamente Randon tratou de recuperar a parte das instalações que não havia sido totalmente destruída no sinistro e reiniciou a elaboração de queijos (parte da produção, estocada em outro local, não chegou a ser atingida). De novo, como no episódio do incêndio da oficina familiar, o empresário vingou-se das chamas construindo uma unidade ainda maior: de 1,6 mil metros quadrados, a queijaria passou para 6,5 mil metros quadrados. A nova fábrica tem assepsia “melhor do que a de muito hospital de alto padrão”, orgulha-se Randon.

O vinho entrou na vida do empresário quase por acaso. Percebendo que as uvas viníferas eram disputadas a peso de ouro pelas vinícolas da Serra Gaúcha, em 2002 decidiu investir também em viticultura. Quatro anos depois, por ocasião da comemoração das Bodas de Ouro do casal Randon, resolveu homenagear a esposa Nilva com um vinho elaborado especialmente para a família pela vinícola Miolo. O blend de Cabernet Sauvignon e Merlot RAR (iniciais do seu nome completo), assinado pelo competente enólogo Adriano Miolo, foi bastante elogiado.

 

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Randon, que, como bom descendente de italianos, aprecia uma tacinha de vinho regularmente (“Mas não todos os dias”, esclarece), animou-se ainda mais com a vitivinicultura quando ouviu do festejado flying winemaker francês Michel Rolland que o terroir da região era extraordinário para o cultivo da casta Merlot. Assim, em vez de simplesmente entregar matéria-prima para a Miolo, tornou-se sócio da vinícola – com a qual elabora atualmente uma linha de dez vinhos, que inclui tintos, brancos e espumantes. São cem mil garrafas por ano. O seu preferido é o RAR Pinot Noir – reconhecido por especialistas como um dos melhores do país elaborados com esta casta caprichosa. Com isso, desistiu de construir um “cantina”, como é chamada, na Serra Gaúcha, a ala industrial das vinícolas (Ultimamente, porém, essa ideia voltou a lhe roubar horas de sono, admite…). “Uma atividade puxa a outra”, comenta, com simplicidade, o “vinhateiro” Randon – que, na safra 2007, não fez vinhos. “As uvas não estavam boas”, explica. A excelência, como sempre, em primeiro lugar.

Perto dos 90 anos, cuidadoso com a saúde a ponto de se submeter a uma dieta para perder peso (um enorme sacrifício para quem tem na boa mesa em companhia de familiares e amigos um de seus maiores prazeres), e obediente à filha médica que lhe restringiu o consumo de sal, o empreendedor Raul Randon continua inquieto. Viaja com frequência ao Exterior, sempre de olho em novos projetos. “Nunca viajo só a passeio”, comenta. Na sede do Grupo Randon, cada vez que o chefe retorna de uma dessas incursões pelo mundo, os executivos sabem que novos negócios estão por vir. A cabeça fervilha de ideias para outros empreendimentos. Em breve, pretende lançar um presunto nobre do tipo Parma. Um sorvete, ao estilo italiano, também está nos seus planos ainda para este ano.

Aposentadoria é uma palavra que não existe no dicionário de Raul Anselmo Randon. “Nunca pensei em parar de trabalhar”, afirma. E acrescenta: “Se eu não vier todos os dias à empresa, aonde irei? Quer um conselho? Trabalhe sempre, ainda que de graça. Pijama não faz bem a ninguém”.

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