Os olivais do Sul*

Por Irineu Guarnier Filho

Os campos suavemente ondulados da metade meridional do Rio Grande do Sul, tradicionalmente ocupados por rebanhos bovinos, por plantações de arroz, de soja e, ultimamente, também por vinhedos, acolhem desde o início da atual década uma nova atividade agrícola que, aos poucos, vai se incorporando à serena paisagem do Pampa gaúcho: a olivicultura.

A produção de azeitonas para a elaboração de azeite atrai principalmente empreendedores rurais em busca de alternativas de cultivo para o tradicional binômio lavoura-pecuária – penalizado nos últimos anos pela estagnação nos preços do arroz e da arroba do boi.

Esses agricultores vêm cultivando oliveiras estimulados pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Irrigação do Estado (Seapi) e por linhas de crédito especiais do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), do Badesul, do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, do Banco do Brasil e do Sicredi, que fornecem recursos para a compra de mudas, instalação de viveiros e aquisição de equipamentos industriais.

O presidente do BRDE, Odacir Klein, lembra que o Banco financia o setor desde 2012. Indústrias localizadas em municípios como Cachoeira do Sul e Piratini já foram beneficiadas pele instituição.

– Este é um setor em forte expansão. Nos últimos anos, várias indústrias foram instaladas na Metade Sul do Estado, produzindo azeites de qualidade reconhecida em concursos internacionais. O BRDE opera com a linha de crédito do BNDES, a Moderagro – explica Klein.

Atualmente, 150 produtores gaúchos cultivam cerca dois mil hectares de oliveiras, segundo a Câmara Setorial da Olivicultura, do governo gaúcho, que lançou, em junho deste ano, o Programa Estadual de Desenvolvimento da Olivicultura-Pró-Oliva.
Os olivais – a maior parte ainda em fase de desenvolvimento – estão presentes em quase 50 municípios gaúchos, entre os quais se destacam Caçapava do Sul, Pinheiro Machado, Cachoeira do Sul, Santana do Livramento, Dom Pedrito, Candiota, Bagé, Encruzilhada do Sul, São Sepé e Barra do Ribeiro – vários deles localizados entre os paralelos 30 e 45, faixa onde vicejam os melhores pomares da olivicultura mundial. Com isso, o Rio Grande do Sul já é o principal produtor de azeitonas e azeite do país, à frente inclusive de Minas Gerais. A atividade cresce 20% ao ano, e a meta é atingir a produção de 1 milhão de litros de azeite em cinco anos.

Os pomares com mais de seis anos de implantação fornecem frutos considerados de ótima qualidade para a extração de azeite extra virgem (sumo da primeira prensagem a frio) em oito agroindústrias em operação no Estado, que trabalham em regime de parceria com os agricultores. As 13 marcas de óleo de oliva comercializadas atualmente destacam em seus produtos qualidades muito apreciadas pelos especialistas: acidez inferior a 8%, frescor, aroma de capim cortado, sabor frutado e, principalmente, a sua pureza.

– Quem experimenta pela primeira vez o óleo fresco e puro aqui do Sul fica em dúvida: mas, afinal, azeite é isso ou é “aquilo” que eu consumia até hoje? A baixa acidez, o aroma de mato e o sabor picante são incomparáveis – resume o coordenador da Câmara Setorial da Olivicultura, Paulo Lipp João.

O azeite – consumido cada vez mais também porque estudos científicos têm revelado que, assim como o vinho tinto, faz bem à saúde – é um dos alimentos mais falsificados no mundo, como revela o livro ExtraVirgindade – O Sublime e o Escandaloso Mundo do Azeite de Oliva, do jornalista norte-americano Tom Mueller. Também é um produto que, sabidamente, não viaja bem. É sensível às sacolejantes viagens marítimas, à luz e ao calor. Oxida e perde boa parte de suas delicadas qualidades organolépticas quando permanece, por exemplo, por longo tempo em contêineres estacionados nos portos.

Assim, azeites extravirgens 100% integrais, frescos, saborosos e elaborados próximo dos centros de consumo, como o gaúcho, podem contar com a preferência de chefs de cozinha e consumidores mais exigentes – mesmo que custem um pouco mais do que o óleo-commodity por conta da (ainda) pequena escala de produção.

Os consumidores do Sul estão descobrindo isso graças a ações de promoção do produto, como o Salão do Azeite, realizado em abril deste ano durante a feira Envase Brasil Alimenta, no Parque de Eventos de Bento Gonçalves. Doze marcas apresentaram seus azeites ao público da feira especializada em alimentos e bebidas, e a recepção animou os organizadores.

Tal como aconteceu com o espumante nacional, degustado hoje com orgulho pelos brasileiros que até alguns anos atrás só bebiam cavas ou champagnes (nem sempre de primeira linha), o azeite pode seguir pelo mesmo caminho, acreditam os fabricantes. Do ponto de vista ambiental, argumentam eles, também é mais “sustentável” temperar um prato com um produto que consome menos combustíveis fósseis em seu transporte.

Como o Brasil produz apenas meio por cento das 50 mil toneladas de azeite que importa principalmente da Espanha, de Portugal e da Itália, mas também dos vizinhos Chile, Uruguai e Argentina, a produção gaúcha tem diante de si um atraente mercado potencial – sobretudo porque o consumo per capita brasileiro, de apenas 250 ml por ano, é ínfimo se comparado ao grego (26 litros), italiano (15 litros) e norte-americano (12 litros). Mas está em alta. Nos últimos dez anos, as vendas tiveram crescimento de mais de 230%, colocando o Brasil entre os principais importadores mundiais de azeitonas e azeite.

Atentos a isso, governantes e empresários vêm, desde o início do milênio, tentando converter a olivicultura em uma alternativa rentável no mapa do agronegócio gaúcho (Isso depois de várias tentativas frustradas nas décadas de 1940, 1950 e 1960). Em 2002, um grupo de produtores procurou o Governo para propor o resgate da cultura. Três anos depois, foram liberados R$ 300 mil para a importação de mudas da Espanha. O “pacote tecnológico” espanhol, no entanto, não obteve sucesso, segundo Lipp. O clima gaúcho, mais chuvoso que o da Espanha, atrapalhou.

– A oliveira é um cactus disfarçado de árvore – brinca Lipp.

Mas, a partir de 2008, com a criação de um grupo técnico formado por pesquisadores e extensionistas da Embrapa e da Emater, a atividade finalmente deslanchou. Variedades como Arbequina, Arbosana, Koroneike e Picual cultivadas corretamente demonstraram boa adaptação às condições de solo e clima locais. E já em 2012 a Câmara da Olivicultura promoveu a primeira Abertura Oficial da Colheita da Oliva – evento incorporado depois ao calendário agrícola do Estado.

A olivicultura é uma atividade perene. Uma vez implantados, os olivais podem produzir por décadas. Na Europa, há pomares ativos com um século, dois ou mais. O investimento inicial, portanto, se dilui ao longo de sucessivas safras. Mas Paulo Lipp reconhece que a atividade tende a ser realmente atraente para quem produz, além da fruta, também o azeite. Como nem todo mundo pode montar uma unidade de extração, o técnico sugere que os produtores negociem com as indústrias o pagamento pela matéria-prima “em azeite” – ao qual possam colocar a sua marca e, com isso, agregar valor à produção do campo.

Marca gaúcha entre as melhores do mundo
 

Um dos pioneiros nesta fase bem-sucedida da olivicultura gaúcha, o ex-engenheiro elétricista José Alberto Aued resolveu apostar na atividade depois de aposentado, por sugestão do filho Gabriel, que voltou de uma viagem à Turquia empolgado com a cultura da oliva. Aued – que chegou a acalentar o desejo de fazer vinhos – adquiriu uma área de 12 hectares na localidade de Altos dos Casemiros, em Cachoeira do Sul, e nela cultivou, em 2006, os primeiros pés de Arbequina, Arbosana e Koroneike importados da Espanha, convencido de que teria de esperar sete ou oito anos pelos primeiros frutos. Bem antes do tempo previsto, no entanto, com apenas três anos e meio de idade, os pomares começaram a frutificar. Antes disso, porém, Aued se cercou da melhor literatura sobre olivicultura existente no mundo – e de orientação agronômica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Em 2010, já com uma máquina italiana de extração instalada na propriedade, houve a primeira colheita comercial. A boa produtividade e a qualidade dos primeiros 800 litros de azeite – comercializados em apenas dois meses na pequena Cachoeira do Sul – foram tão estimulantes que a família Aued decidiu investir ainda mais no negócio. Logo, mais 13 hectares seriam incorporados à propriedade. Hoje, além dos 25 hectares em Cachoeira do Sul, a família também cultiva oliveiras em outros 90 hectares, no município de Encruzilhada do Sul.

– Nossa expectativa é chegar a um total de 175 hectares com oliveiras nos dois municípios, porque o reconhecimento à qualidade do azeite que produzimos avança numa velocidade muito maior do que a esperada – comemora o engenheiro civil Daniel Ceolin Aued, filho de José Alberto.

Reconhecimento internacional, inclusive. Desde 2011, o azeite Olivas do Sul figura ao lado de mais de 700 marcas de alta gama do mundo inteiro no respeitado guia italiano Flos Olei. Para Daniel Aued, a tendência de valorização de produtos nobres da gastronomia – vinhos, queijos, cafés etc – que se consolida no país deve fazer com que os consumidores valorizem cada vez mais alimentos puros, frescos, regionais, que harmonizam melhor com os pratos locais.

– Não imagino um prato típico da culinária rio-grandense que não seja elaborado hoje em dia com um azeite gaúcho. A identidade local é muito importante.

Alternativa de renda e atração turística

 

Na região Central do Rio Grande do Sul, portal do Pampa, o município de São Sepé, tradicional produtor de soja, arroz e carne bovina, começa a despertar para a olivicultura. Região árida, com verões quentes e solos pedregosos, os campos locais têm se revelado apropriados à nova cultura. Atualmente, cerca de 100 hectares já estão cultivados com oliveiras. O prefeito Leocarlos Gazzoni Girardello resume em duas frases curtas o impacto da chegada da olivicultura ao município.

– Foi um choque. Lindo de se ver.

Hoje, cerca de dez produtores já se dedicam a produção de azeitonas, que são convertidas em azeite no vizinho município de Caçapava do Sul, e a tendência, segundo a prefeitura, é de expansão da área ocupada pelos olivais – que começa a disputar espaços com vinhedos implantados também nos últimos anos. São Sepé já tem a sua Festa da Uva, no final de janeiro, e pleiteia, para o ano que vem, sediar a Abertura Oficial da Colheita da Oliva.

– Azeite não gosta de passear. O nosso óleo, produzido e consumido por perto, é muito melhor – conclui Girardello.

Localizado em Pinheiro Machado, mais ao Sul, o olival do empresário Luiz Eduardo Batalha, um dos maiores do Estado, se espalha desde 2010 por uma área de 400 hectares – e continua a aumentar. O clima temperado favoreceu o rápido crescimento das plantas e, já na segunda safra comercial, colhida neste ano, foram elaborados dez mil litros de azeite, que são comercializados em grandes redes de supermercado no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

O gerente comercial Rossano Lazzarotto confia no potencial do mercado interno para o azeite brasileiro, uma vez que a maior parte do óleo importado é “produto de combate”, de menor qualidade, segundo ele. Uma azeite importado de alta qualidade pode custar R$ 100 (garrafa de 500 ml); o da marca Batalha, do mesmo nível, é comercializado na faixa entre R$ 40 e R$ 50, compara.

A olivicultura é uma atividade tão fascinante quanto a vitivinicultura para quem cozinha profissionalmente ou simplesmente gosta de comer bem. Tanto que, somente neste ano, os olivais da família Batalha receberam cerca de 400 visitantes, divididos em dez grupos, que em almoços regados com os bons vinhos da região provaram o azeite do Pampa acompanhado de outra iguaria local – a carne de cordeiro.

– Nem estamos abertos à visitação, mas mesmo assim já estamos virando uma atração turística – comemora Lazzarotto.

*Reportagem publicada no segundo número da revista Plant Project, de São Paulo.

 

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