O tempo entre drinks

drink

O tempo entre um drink e outro, à mesa de um bar tranquilo, parece suspenso entre eternidades. A sós com nossos pensamentos, nada acontece – mas a mente viaja. Navega em devaneios, silenciosamente como o gelo que derrete no copo. Bares são oásis refrescantes para muito de nós que levamos vidas urbanas agitadas e, de vez em quando, precisamos relaxar um pouco.

O cineasta espanhol Luis Buñuel, no seu livro de memórias Meu Último Suspiro, nos legou um esplêndido inventário sentimental dos bares que amou. Já no preâmbulo do capítulo “Os prazeres terrenos”, que transcrevo resumidamente aqui, ele conta: “Passei horas deliciosas nos bares. O bar é para mim um local de meditação e de recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível. Como São Simeão Estilita empoleirado em sua coluna e dialogando com seu deus invisível, passei longos momentos de devaneio nos bares, raramente falando com o garçom e quase sempre comigo mesmo, invadido por cortejos de imagens que não paravam de surpreender-me. Especifico, em primeiro lugar, que faço uma distinção entre o bar e o café. Digo apenas que o café pressupõe a diversão, o entra-e-sai, a amizade às vezes barulhenta, mulheres. O bar é, ao contrário, um exercício de solidão. Antes de mais nada tem de ser tranquilo, bastante escuro, muito confortável. Toda música, mesmo distante, deve ser severamente proscrita (contrariamente ao hábito infame que hoje se propaga pelo mundo). Uma dúzia de mesas no máximo, se possível com frequentadores habituais pouco falantes”. Não seria esta, por acaso, a descrição perfeita do bar ideal?

Já o escritor Raymond Chandler, na novela policial noir O Longo Adeus, descreve lindamente “aquela hora mágica em que o ar ainda está fresco e puro, tudo brilha e o garçom dá uma última olhada no espelho para ver se a gravata está reta e o cabelo penteado”. O personagem de Chandler sente prazer em “observar as garrafas arrumadas nas prateleiras, o adorável reflexo dos copos limpos e o ambiente de expectativa, ver o garçom preparar o primeiro drinque e colocá-lo num copo de cristal sobre um pequeno guardanapo dobrado”. Para Chandler, o primeiro gole tranquilo da noite é uma experiência magnífica. Como negar?

Quando eu ainda cultivava veleidades literárias juvenis, lá se vão séculos, descrevi em um pequeno conto meu bar ideal: uma pirâmide de vidro negro, com poucas mesas no subsolo escuro e gelado, frequentadores bem educados, garçonetes bonitas e gentis, boas bebidas, um sax, um contrabaixo e um piano baixinhos ao fundo, fotos em preto e branco nas paredes bordô; enfim, um oásis de cristal nas noites ardentes do centro de uma grande cidade.

Um bar parecido com este – só que mais movimentado – existiu de fato em Porto Alegre nos anos 1980. Era o bar do Instituto dos Arquitetos do Brasil, no subsolo de um prédio antigo do Centro Histórico. No Bar do IAB, vivi momentos de introspecção, mas também compartilhei mesas inesquecíveis com escritores, jornalistas, atores, cartunistas, cineastas, advogados, políticos, mulheres lindas e tanta gente divertida e talentosa. Uma fauna interessante e heterogênea como nunca mais encontrei reunida em nenhum outro bar.

Foi o melhor bar da minha vida. Ainda havia uma pequena livraria anexa, que funcionava quase como uma biblioteca. A comida era boa
– lembro-me de uma especialidade da casa: a Massa Suiça. De vez em quando rolava um pocket show intimista no pequeno palco. E os frequentadores mais assíduos batiam ponto – literalmente – em um velho relógio-ponto Dimep.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *