Vinho nas terras do boi e do cordeiro

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Por Irineu Guarnier Filho

Segunda maior região produtora de vinhos finos do Brasil, atrás apenas da Serra Gaúcha, a Campanha – na metade meridional do Rio Grande do Sul – já possui 2 mil hectares de vinhedos. Deles, saem 35% das uvas viníferas brasileiras e 25% do vinho fino nacional. Em pleno Paralelo 31 (o mesmo onde se localizam tradicionais regiões vinícolas da Austrália, África do Sul ou Chile), a Campanha Gaúcha abriga atualmente cerca de 20 projetos vitivinícolas, distribuídos em um arco entre os municípios de Candiota e Itaqui.

Os números impressionam – mas o terroir do bioma Pampa, por onde se esparramam esses vinhedos, mais ainda. Com topografia suavemente ondulada, elevações de no máximo 300 metros, solos pedregosos, invernos rigorosos e verões muito secos, além de excelente insolação, a Campanha se credencia como uma das mais promissoras regiões vitivinícolas da América do Sul.

OS VINHOS DA CAMPANHA

Ideal para a produção de vinhos tintos mais encorpados, elaborados com uvas Cabernet Sauvignon, Tannat ou Touriga Nacional, a Campanha também tem revelado pendor para a elaboração de brancos menos ácidos e mais estruturados que os da Serra à base de Chardonnay e Sauvignon Blanc, e de espumantes frescos.

Se os vinhos da Serra Gaúcha lembram um pouco o estilo Velho Mundo, a produção da Campanha tem mais a cara do Novo Mundo. Uva emblemática? Ao contrário da Serra, que elegeu a Merlot, a Campanha ainda não se decidiu entre Cabernet Sauvignon e Tannat. Mas, pela proximidade com o Uruguai – o terroir preferido da casta francesa Tannat -, tudo indica que esta última acabe levando vantagem nessa disputa.
HISTÓRIA VITIVINÍCOLA ANTIGA

Mais antiga do que se imagina, a atividade vitivinícola chegou à região bem antes de a imigração italiana desembarcar na Serra (na segunda metade do século 19), pelas mãos de padres jesuítas espanhóis. Em 1888, já havia até uma vinícola na Campanha – a Quinta do Seival, erguida por um empreendedor espanhol.

Foi a partir do início da década de 1970, no entanto, com a instalação de projetos norte-americano (Almadén) e japonês (Santa Colina) em Sant’Ana do Livramento que a vitivinicultura ganhou impulso na chamada Fronteira da Paz. A atividade se consolidou a partir de 2000 com a migração de tradicionais vinícolas da Serra, como Salton, Nova Aliança e Miolo, para municípios da região, em busca de clima mais favorável à vinha e terras planas propícias à mecanização. Duas décadas depois, a Campanha está prestes a ser contemplada com uma Indicação de Procedência (IP) do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) – que irá reconhecer a identidade de seus vinhos e agregar valor aos rótulos de vinícolas como Guatambu, Dunamis, Peruzzo, Seival Estate e outras.

VINHEDOS NA FRONTEIRA DA PAZ

Um final de semana certamente é pouco tempo para explorar um polo vitivinícola fascinante como o de Sant’Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, onde se concentra a maior parte dos vinhedos da Campanha. Mas nos dois dias que passei por lá recentemente vi – e soube de – muita coisa interessante em andamento: projetos enoturísticos surgindo, novas ideias, valorização da enogastronomia local, resgate cultural da rica história da Fronteira.

Seria o começo de um novo ciclo de desenvolvimento regional? Parecido, talvez, com o experimentado nos anos 1970 – só que liderado agora por empreendedores locais?

Chama a atenção, por exemplo, o roteiro enoturístico batizado de Ferradura dos Vinhedos. Concebido a partir de um estudo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) – que, aliás, já oferece um curso superior de enologia, em Dom Pedrito – o percurso em forma de ferradura contempla visitas a vinhedos das empresas Salton, Nova Aliança, Almadén e Cordilheira de Santana.

De quebra, brinda o turista com a bela vista de lugares como o Cerro Palomas, o Cerro da Cruz, olivais, e com passagens por locais históricos da Revolução Farroupilha. O Café Campeiro, à base de produtos regionais, servido no Passo do Guedes, completa o cardápio de atrações do circuito Ferradura dos Vinhedos.

CORDEIRO: IGUARIA LOCAL

Mas não é só isso. Também existe a perspectiva de implantação de uma ferrovia turística em meio aos vinhedos e campos onde pasta o maior rebanho ovino do Estado. Não por acaso a carne de cordeiro é uma iguaria local. E quando o assunto é cordeiro, um nome se destaca: o do chef Nasser Zeidan. De origem árabe, Zeidan é um especialista no preparo de diferentes cortes de cordeiro assado. O seu cordeiro recheado com arroz do deserto, que provei na última Expofeira de Sant’Ana do Livramento, é uma delícia com sabor de Oriente.

Dentre as atrações ligadas à enogastronomia santanense, destacaria ainda uma pequena loja de produtos locais como vinhos, azeites, mel, charque, linguiça de ovelha e cervejas artesanais. O Armazém do Pampa reúne isso e muito mais em um simpático ambiente rústico inspirado nos antigos “bolichos” da zona rural.

Por tudo isso, quem vai à Fronteira para fazer compras nos freeshops de Rivera, no lado uruguaio, deveria reservar um pouco mais de tempo para conhecer também algumas das atrações enogastronômicas de Sant’Ana do Livramento. Há muito para se ver e provar.

 

 

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