NA INTIMIDADE DE UM ÍCONE CHILENO

Don Melchor não é apenas mais uma marca no variado portfólio da segunda maior vinícola do mundo. Don Melchor é praticamente uma vinícola boutique dentro da gigante Concha y Toro, com vinhedo próprio, cantina à parte, uma equipe dedicada especialmente à marca, e um enólogo exclusivo: Enrique Tirado Santelices. Don Melchor tem vida e personalidade próprias. Para seus elaboradores – e fãs espalhados pelo mundo – é um vinho único.

Não por acaso, desde a safra de 1988 o emblemático rótulo chileno tem estado entre os mais bem pontuados vinhos do mundo nos rankings de respeitáveis publicações como Wine Spectator, Wine Enthusiast e Wine Advocate (Robert Parker), com notas que vão de 90 a 96 pontos de cem possíveis. No Brasil, onde Don Melchor desfruta de grande apreço entre enófilos exigentes, há três confrarias especializadas exclusivamente na marca – caso único no mundo.

Vinho de terroir

Don Melchor é, nas palavras do enólogo Enrique Tirado, um vinho de terroir, que expressa as peculiaridades do solo aluvial do sopé da Cordilheira dos Andes, pobre, com muita pedra; do clima andino, com pouca chuva no verão, calor durante o dia e frio à noite, e de videiras com 30 anos de idade em média. O ícone da Concha y Toro, produzido desde 1987, tem origem em um vinhedo de 127 hectares cultivado a 650 metros de altitude em relação ao nível do mar. De acordo com Tirado, esse é um dos melhores terroirs do mundo para a cepa francesa Cabernet Sauvignon. Impossível contrariá-lo.

O orgulho da CyT é um assemblage de Cabernet Sauvignon de seis parcelas diferentes do vinhedo de Puente Alto. O vinho de cada parcela é elaborado em separado, e, depois, o corte é feito com base nas características que esses terrenos aportam às uvas. Em alguns anos, incorporam-se ao blend pequenos volumes de Cabernet Franc. Don Melchor tem sido elaborado todos os anos graças a estabilidade climática do Alto Maipo, garante o autor.

Conjunto equilibrado

O vinho da safra 2010, que degustei em 2014, por ocasião do seu lançamento no Brasil, tem 14,6% de álcool e estagiou por 15 meses em barricas de carvalho francês. É um tinto potente, carnudo, com nariz complexo de frutas negras, permeado por notas de especiarias e chocolate. Na boca, sobressaem a acidez vibrante, a suculência, a persistência final e o agradável frescor de uma nota de mentol – um conjunto bem equilibrado em que nenhum dos elementos destoa.

Quis saber de onde vem o mentol, presente em algumas safras de DM, e Tirado me garantiu que esse sabor tão pecualiar tem origem em algumas parcelas do solo de Puente Alto, e não na proximidade com bosques de eucalipto, como acontece com outros tintos chilenos.

O enólogo que “ouve” as videiras

Enrique Tirado é hoje um dos mais respeitados enólogos chilenos. Ingressou na CyT em 1993. Participa da elaboração de Don Melchor desde 1997. E, a partir de 1999, passou a assinar este rótulo como enólogo exclusivo. Também já atuou como co-enólogo em outro projeto especialíssimo da CyT, em parceria com a vinícola francesa Baron Philippe de Rothschild: o vinho Almaviva. Tirado é apaixonado pelo terroir de Puente Alto e pela Cabernet Sauvignon. O enólogo conta que gosta de observar e “ouvir” as suas videiras, para trabalhá-lhas de modo a conseguir o equilíbrio perfeito em cada colheita.

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