O QUE NOS ENSINAM OS “CRISTÃOS NOVOS” DO VINHO

Amigos brasileiros vivendo nos Estados Unidos exaltam a contribuição do crítico Robert Parker para a formação de uma cultura enológica naquele país. Não sou anti-Robert Parker, embora discorde um pouco do seu gosto por vinhos mais alcoólicos ou super extraídos (Parker, aliás, já mudou bastante a esse respeito), e também implique com seu sistema de pontuação.

Mas esses amigos me dizem que avaliações conduzidas por Parker e sua equipe de degustadores (sim, são muitos), facilitaram a modernização da indústria nacional, sem que isso significasse a “McDonaldização dos vinhos”. Para eles, há uma clara evolução entre os vinhos de uma mesma vinícola elaborados antes e depois da “Era Parker”.

Não discordo. O trabalho “evangelizador” de Parker formou uma nova geração de consumidores – não só nos EUA. Mas é claro que, por ser o crítico mais importante do mundo, seu gosto acaba influenciando o de bebedores menos experientes. Ou não? Há quem diga que, de alguns anos para cá, os vinhos franceses de Bordeaux estejam com um ou dois graus alcóolicos acima da média histórica – muitos mais para agradar Parker do que em razão do aquecimento global. Exagero, certamente.

Mas dou o braço a torcer. Os americanos – neófitos em enologia, se comparados ao vinicultores do Velho Mundo – têm outros méritos além de elaborar, atualmente, alguns dos melhores vinhos do mundo. Sistemáticos como são, organizaram o sistema de produção local; focaram em um número menor de castas; enfatizaram o nome da uva nos rótulos; flexibilizaram o conceito de denominação de origem, e fizeram um excelente trabalho de marketing. O merchandising do vinho no filme “Sideways-Entre Umas e Outras” é um bom exemplo.

Hoje, nos EUA ou onde quer que se beba um vinho norte-americano, mesmo o consumidor menos experiente sabe antecipadamente, pelo rótulo, o que vai beber. Na Europa, é bem diferente. A não ser que você seja um expert em vinhos, cada vez que solicita a carta em um restaurante francês depara com tantos produtores desconhecidos, safras e assemblages que fica confuso para escolher a garrafa certa para aquele momento ou prato.
Na França, poucas marcas trazem a variedade da uva no rótulo. Destacam-se a região e o produtor. E são muitos rótulos. Há uma profusão de vinícolas em cada lugarejo, tantos terroirs diferentes, às vezes separados por uma cerca…Cada pequeno produtor tem seu próprio vinho – ou vinhos. A diversidade de opções – desejável, sem dúvida – por vezes confunde o consumidor não iniciado. Ouvi de um francês “da gema” que a maioria de seus compatriotas se atrapalha diante da quantidade de rótulos. Se é complicado para eles, imagine para nós…

Pois é, talvez nesse terreno o Velho Mundo tenha mesmo algo a aprender com os “cristãos-novos” da jovem vitivinicultura norte-americana. Em matéria de marketing, os americanos são mesmo imbatíveis.

 

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