Bares de hotéis

hoteis

Muita gente boa que conheço não gosta de bares de hotel. Eu gosto. Como viajo muito e, às vezes, não estou disposto a me aventurar por geografias urbanas desconhecidas, o bar do hotel onde me hospedo acaba sendo um refúgio seguro para um drinque, petiscos, a leitura de e-mails (Alguém ainda envia e-mails?), de um livro, ou até para uma prolongada meditação. Uma breve viagem de elevador, e estou na minha cama quentinha.

Geralmente, bares de hotéis são lugares tranquilos, com música instrumental baixa, garçons sempre disponíveis, e poucos frequentadores. Como ninguém se conhece, e todos por ali estão em trânsito, a possibilidade de um encontro com aquele chato velho conhecido ou, ao contrário, de engatar uma nova amizade com alguém interessante é remota. Bares de hotéis são lugares propícios ao exercício por vezes prazeroso da solidão.

O cineasta espanhol Luís Buñuel gostava de refletir, sonhar, e escrever roteiros em bares de hotéis escuros e silenciosos. Hospedava-se em hoteis com bares criteriosamente selecionados, nos quais imaginava seus filmes perturbadores. Grandes escritores da Era do Jazz, como Dorothy Parker e F. Scott Fitzgerald, eram frequentadores assíduos do bar do Algonquin Hotel, em Nova York. A mesa do Algonquin ficou célebre pelas histórias e porres de seus frequentadores, narrados pela própria Dorothy.

Outro grande autor americano, Truman Capote, que nos legou a obra-prima do romance de não ficção A Sangue Frio, também era chegado a um bar de hotel – para encher a cara e, de vez em quando, até escrever. Woody Allen ainda toca jazz com seus amigos quase toda terça-feira à noite no bar do Carlyle Hotel (Bemelmans Bar), também em Nova Iorque. Hemingway escrevia em cafés de Paris – mas isso é outra história, porque a frivolidade dos cafés não têm nada a ver com a atmosfera intimista dos bares de hotel, como nos ensinou Buñuel no seu magnífico livro de memórias Meu Último Suspiro.

No Brasil, quase não temos o hábito de frequentar bares deste tipo, a menos que estejamos hospedados no hotel. Mas a maioria dos bons hotéis brasileiros possui bares aconchegantes, onde podemos nos sentir ao mesmo tempo em casa e em viagem. Por que não elegê-los como local para um encontro de negócios ou, se for o caso, romântico?

Quase nunca nos lembramos dos bares de hotel da cidade onde vivemos como opção para um happy hour tranquilo, por exemplo. Mas eles estão lá, com seus frequentadores discretos, às vezes solitários ou com jeito de extraviados, porque não conhecem ninguém na cidade e estão longe de suas casas, com seus garçons solícitos, um solo de jazz baixinho ao fundo e pouca luz. Não é preciso ser um gênio como Buñuel para se deixar levar por devaneios num lugar assim.

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