A valorização do terroir

terroir

A valorização do terroir

Irineu Guarnier Filho

 

A Serra Gaúcha está prestes a ser contemplada com a primeira Indicação Geográfica de vinhos espumantes fora da Europa. Até o final do ano que vem, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) concederá ao município gaúcho de Pinto Bandeira – que já detém uma Indicação de Procedência (IP) para vinhos finos em geral – uma Denominação de Origem (DO) específica para espumantes. A exemplo de Champagne, na França, a mais famosa região demarcada de espumantes do mundo, a DO Altos de Pinto Bandeira será exclusiva para este estilo de vinho.

As Indicações Geográficas concedidas pelo INPI dividem-se em duas categorias: Indicação de Procedência (IP) e Denominação de Origem (DO). As DOs são o topo das IGs brasileiras para vinhos, cachaça e alimentos como carne, arroz e café, entre outros produtos. Uma Indicação Geográfica não é, necessariamente, uma certificação de qualidade para um vinho ou outro alimento, embora lhes confira algum status. É, principalmente, o atestado de identidade regional de um produto. Garante que o espumante de Pinto Bandeira, por exemplo, foi elaborado em uma área geograficamente demarcada sob a orientaçāo de entidades sérias – como, neste caso, a Embrapa e a Universidade de Caxias do Sul (UCS) – com certas variedades de uvas, e de acordo com algumas regras. Essas normas podem ser mais ou menos rigorosas – mas também podem mudar a qualquer tempo, se os produtores entenderem que as condições ambientais ou o mercado estão a exigir correções de rota.

Os produtores da tradicional região vinícola serrana comemoram, antecipadamente, mais esta conquista, convencidos de que o selo da DO Altos de Pinto Bandeira deverá agregar valor aos espumantes locais e estimular o enoturismo na região. Como aconteceu no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, detentor da primeira – e, até agora, única – DO para vinhos finos do Brasil.

“A valorização das uvas e das terras, o crescimento do enoturismo local, e os novos investimentos que virão com a DO são até mais importantes do que o valor que será agregado aos nossos rótulos”, pondera o enólogo chileno Carlos Abarzúa, da vinícola Cave Geisse. Hoje, um hectare de vinhedo em área nobre de Pinto Bandeira está cotado em cerca de 300 mil reais. Apenas para efeito de comparação, a poucos quilômetros dali, na DO Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, uma área com a mesma metragem pode custar mais de 500 mil. Na Champagne, este preço sobe para mais de 6 milhões de euros – e um quilo de uva chega a ser comercializado por 13 euros. “Queremos que os produtores entendam isso, e valorizem a nossa DO”, conclui Abarzúa.

Em linhas gerais, as regras definidas pelos proprietários das quatro vinícolas que comporão a DO Altos de Pinto Bandeira (Cave Geisse, Valmarino, Aurora e Don Giovanni) em conjunto com os pesquisadores da Embrapa e da UCS, estabelecem que os espumantes devem ser elaborados pelo Método Tradicional (segunda fermentação na garrafa) e permanecer pelo menos dois anos em contato com as leveduras mortas (processo chamado de autólise). As uvas devem ser das variedades viníferas brancas Chardonnay, Riesling Itálico e a tinta Pinot Noir, cultivadas acima de 500 metros de altitude. Os vinhedos têm de ser conduzidos em sistema de espaldeira, e o rendimento não pode ultrapassar o total de 12 mil quilos por hectare.

Quanto ao grau de açúcar das bebidas, o regulamento admite três categorias: brut, extra-brut e nature (zero açúcar ou quase isso). Uma garrafa especialmente desenhada para a DO também está em estudo. “Queremos regras bem definidas, mas estamos atentos para não engessar a produção. Se surgir alguma novidade interessante, podemos mexer nas regras”, esclarece Abarzúa.

Inicialmente, serão elaboradas até 600 mil garrafas por ano (boa parte da produção atual das vinícolas locais já está de acordo com o regulameto da DO). Em degustações realizadas de dois anos para cá, desde que se iniciaram as pesquisas para a criação da DO, enólogos e pesquisadores têm anotado características próprias nos espumantes de Pinto Bandeira, dentre elas um grau alcólico elevado, aromas frutados e acidez marcante – que aporta à bebida a vivacidade borbulhante tão desejada pelos seus apreciadores.

 
Recanto privilegiado

 

O município de Pinto Bandeira já foi distrito de Bento Gonçalves. Emancipou-se, virou município, voltou a ser distrito, e hoje é novamente município. Em um dos pontos mais elevados da Serra Gaúcha, acima de 700 metros de altitude, ocupa lugar cada vez mais destacado no mapa vitivinícola brasileiro. A altitude, os invernos muito frios, as encostas ensolaradas, o solo argiloso e a longa tradição vitivinícola dos descendentes de imigrantes italianos têm contribuído para fazer do pequeno município um dos mais promissores recantos para a produção de vinhos espumantes no Brasil.

O enólogo chileno Mario Geisse, proprietário da vinícola Cave Geisse, que produz vinhos em vários países, inclusive na França, já declarou que, depois da Champagne, Pinto Bandeira é um dos melhores territórios no mundo para a elaboração de espumantes. Entre outras razões porque, nas frias encostas locais, as uvas amadurecem completamente sem perder a acidez que confere tensão e frescor aos espumantes.

O vinho é, ou deveria ser, o reflexo do lugar e das condições de solo e clima em que é produzido – o que os franceses chamam de “terroir”. São essas características naturais, mais as plantas e a intervenção humana, que conferem à bebida o seu caráter único. Especialistas, como Abarzúa, garantem que os espumantes de Pinto Bandeira possuem personalidade própria reconhecível. Ou seja, refletem o terroir em que são produzidos. Estaria, assim, plenamente justificado, portanto, o pleito pela criação da DO.

 

 
Certificado de identidade

 
Foi o Marquês de Pombal que, há mais de 300 anos, reconheceu o Vale do Douro, em Portugal, como a primeira região demarcada para a elaboração de vinhos no mundo. Desde então, a Europa não parou de criar denominações de origem para proteger a autenticidade de produtos agroalimentares como vinhos, destilados, queijos ou presuntos. A França deu grande contribuição à formação deste conceito. A experiência francesa, uma das mais conhecidas hoje em dia, remonta ao século 18, quando surgiu a primeira Apelação de Origem: Châteauneuf-du-Pape. Hoje, são mais de 5,2 mil denominações regionais em toda a União Europeia.

Seguidor do modelo europeu, o Brasil viu o número de Indicações Geográficas para vinhos se multiplicar nos últimos quinze anos, após a criação da Indicação de Procedência (hoje DO) Vale dos Vinhedos. Além das regiões vinícolas do Vale dos Vinhedos, de Pinto Bandeira, dos Altos Montes (nos municípios de Flores da Cunha e Nova Pádua), de Monte Belo do Sul e de Farroupilha, que já possuem IGs, o Litoral Norte possui uma Denominação de Origem (DO) para arroz, e a Campanha Gaúcha, na metade meridional do Estado, uma IP para a Carne do Pampa.

O número de IGs brasileiras ainda é muito pequeno, se comparado ao de demarcações regionais em países da União Europeia (Champagne, Bordeaux, Cognac, Chianti, Douro, Roquefort etc). Mas o interesse crescente pelo assunto mostra que os produtores rurais estão cada dia mais conscientes da necessidade de construir uma identidade própria para seus produtos.

 

 
Cordeiro e vinho na Campanha

 

 

Atualmente, diversas regiões gaúchas buscam esse tipo de reconhecimento. A Campanha é uma delas. Segunda maior região produtora de vinhos finos do Brasil, atrás apenas da Serra Gaúcha, a Campanha já possui 2 mil hectares de vinhedos. Deles, saem 35% das uvas viníferas brasileiras e 25% do vinho fino nacional. Em pleno Paralelo 31 (o mesmo onde se situam tradicionais regiões vinícolas da Austrália, África do Sul ou Chile), a região abriga atualmente cerca de 20 projetos vitivinícolas.

Os números impressionam – mas o terroir do bioma Pampa, por onde se esparramam esses vinhedos, mais ainda. Com topografia suavemente ondulada, elevações de no máximo 300 metros, solos pedregosos, invernos rigorosos e verões muito secos, a Campanha se credencia como uma das mais promissoras regiões vitivinícolas da América do Sul. Ideal para a produção de vinhos tintos mais encorpados, feitos com uvas Cabernet Sauvignon, Tannat ou Touriga Nacional, a Campanha também revela pendor para a elaboração de brancos – menos ácidos e mais estruturados que os da Serra – à base de Chardonnay e Sauvignon Blanc. Se os vinhos da Serra Gaúcha lembram mais o estilo Velho Mundo, a produção da Campanha tem a cara do Novo Mundo.

Foi a partir do início da década de 1970, com a instalação de projetos norte-americano (Almadén) e japonês (Santa Colina) em Sant’Ana do Livramento que a vitivinicultura ganhou impulso na fronteira com o Uruguai. A atividade se consolidou a partir do ano 2000 com a migração de tradicionais vinícolas da Serra, como Salton, Nova Aliança e Miolo, para municípios da região, em busca de clima mais favorável à vinha e terras planas mais propícias à mecanização.

Duas décadas depois, a Campanha também aguarda para breve uma Indicação de Procedência do INPI – que irá reconhecer a identidade de seus vinhos, produzidos em um arco que liga o município de Candiota ao de Itaqui, passando por Bagé, Dom Pedrito, Sant’Ana do Livramento, Uruguaiana e Rosário do Sul, e valorizar rótulos de vinícolas como Guatambu, Dunamis, Peruzzo, Seival Estate, entre outras.

Seria o começo de um novo ciclo de desenvolvimento regional? Parecido, talvez, com o experimentado nos anos 1970, com a chegada de empresas multinacionais à Livramento – só que liderado agora por empreendedores locais? O vice-presidente do Sindicato Rural de San’Ana do Livramento, Luis Carlos D’Áuria, acredita que sim. “Temos vinhos, azeite, mel, arroz e carne de cordeiro com qualidades únicas da nossa região. Precisamos valorizar nossos produtos”. Alguns pecuaristas locais já começam a pensar na possibilidde de pleitear uma IG para a carne de cordeiro local, a exemplo da que existe na Normandia, na França, para a do cordeiro “pré-salé” (que se alimenta de pasto salgado pela maré alta).

A rica enogastronomia da região pode ser degustada no roteiro enoturístico batizado de Ferradura dos Vinhedos. Concebido a partir de um estudo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), o percurso contempla visitas a vinhedos das empresas Salton, Nova Aliança, Almadén e Cordilheira de Santana. De quebra, brinda o turista com a bela vista de lugares como o Cerro Palomas, o Cerro da Cruz e com passagens por locais históricos da Revolução Farroupilha. O Café Campeiro, à base de produtos locais, servido no Passo do Guedes, completa o cardápio de atrações com a marca do terroir pampeano.

 

 

Quanto vale um terroir?
(Reportagem publicada pela revista Plant Project de abril de 2018)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *