Os mundos do vinho

O chamado “mundo do vinho” é composto, basicamente, por dois “mundos” distintos: o da produção e o do consumo. De um lado, agricultores, vinhateiros, agrônomos, enólogos; do outro, comerciantes, sommeliers, chefs, jornalistas, enófilos. Campo e cidade em perfeita sinergia.

Apesar de todo o glamour que cerca o consumo de vinho nos grandes centros urbanos (confrarias, harmonizações, winebars, concursos…), essa bebida ainda é um produto essencialmente agrícola. O vinho nasce da terra. É moldado pelas características do solo, do clima, da fauna, da flora e pela mão do homem, que lhe dão caráter, personalidade. Como poucos alimentos, reflete, por assim, dizer o terroir de onde provém.

Poucas são as atividades agrícolas que demandam tanta mão de obra o ano inteiro como a viticultura. Quem produz uvas, nunca descansa. O enólogo pode até não ser um viticultor, mas como depende fundamentalmente da qualidade da uva para elaborar o seu vinho, está sempre com um olho no tanque de fermentação e o outro no vinhedo…

A videira é uma planta vigorosa, temperamental, caprichosa. Suas raízes podem descer mais de dez metros pelo solo em busca de água e nutrientes. Os sarmentos, os galhos, crescem desordenadamente, e precisam ser conduzidos com mão firme para que formem um vinhedo adequado ao manejo e à produção de cachos saudáveis.

Poda seca. Poda verde. Enxertia. Raleio. Controle de doenças e pragas. Vindima. Sempre há muito trabalho no vinhedo, em todas as estações do ano. Faina dura, executada sob frio congelante ou sol forte. Tudo isso, embora mais afeito aos engenheiros agrônomos, também diz respeito aos enólogos, que fazem a alquimia de converter plantas, terra, água e sol em alegria engarrafada.

Na vinícola, ocorrem as etapas cruciais da transformação do suco de uva em vinho: fermentação do mosto, remontagem, filtragem, estabilização, trasfegas, corte, afinamento em barricas de carvalho, engarrafamento… Por mais que se deseje, atualmente, um mínimo de intervenção humana no processo, há muito por fazer, posto que o vinho não se faz sozinho. Como bem disse o crítico português Rui Falcão, “O vinho é um produto da civilização, não da natureza”.

Vinhedos que “trocam de roupa” quatro vezes ao ano. O perfume de uvas dulcíssimas às vésperas da colheita. Garrafas empoeiradas dormindo o sono profundo das escuras e silenciosas caves de pedra, enquanto as leveduras (mesmo depois de mortas) cumprem a laboriosa missão de tornar os espumantes ainda mais complexos… Tudo isso pode parecer muito romântico, mas não se enganem: é produto de trabalho árduo, braçal, cansativo, antes de ser intelectual ou glamouroso.

Por isso, e mesmo reconhecendo a importância de cada um dos “mundos” que compõem o “mundo de Baco”, faço aqui uma confissão: sempre me senti mais confortável entre quem faz o vinho com suas mãos do que entre os que apenas o bebem ou o analisam. Consequência, talvez, de três décadas de convivência próxima com o campo, com o agronegócio e, principalmente, com os agricultores.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *