A safra das safras

Na Serra Gaúcha, principal região produtora de vinhos finos do país, o clima sempre esteve mais para Bordeaux do que para Mendoza. Se, no deserto argentino de Mendoza, irrigado no verão pelo degelo da Cordilheira dos Andes, quase todas as safras vitivinícolas são ótimas, em regiões como o Vale dos Vinhedos a qualidade da vindima pode variar bastante de um ano para outro, dependendo, principalmente, do regime de chuvas e da disponibilidade de luz solar – como na França. Em anos de pouca chuva e condições meteorológicas favoráveis, como os de 1991, 2005 ou 2018, o Rio Grande do Sul teve safras excepcionais, que são lembradas com devoção por quem aprecia vinho brasileiro. Mas, ao que tudo indica, a safra de 2020 tem tudo para entrar para a história como a melhor já colhida.

Depois de um inverno bastante frio, que beneficiou a dormência das videiras, choveu pouco no verão gaúcho. Por causa da escassez de água (dramática para as culturas de milho e soja do Estado), a produção de uvas foi menor do que o normal, mas os cachos colhidos resultaram mais saudáveis e concentrados – o que é desejável para o vinho. “Estamos diante da safra das safras”, festeja o enólogo Daniel Salvador, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE). E completa: “Esta vindima foi bela, uma escultura, um monumento que a natureza nos deu. Este ano, a mãe natureza fez a sua parte de forma esplêndida”. Importante lembrar que a a alta qualidade da safra não se restringe à Serra Gaúcha. Vinhateiros de outras regiões vinícolas do Estado, como a Campanha e os Campos de Cima da Serra, confirmam as palavras de Salvador.

O professor Eduardo Giovaninni, que elabora vinhos autorais em sua vinícola Quinta Barroca da Tília, em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, também considera a safra 2020 excepcional. “O que define a qualidade da uva (medida pelo teor de açúcares e sanidade) é a relação de horas de sol dividida por milímetros de chuva entre o começo da coloração e a colheita. É uma estimativa meio grosseira, mas ajuda, e foi criada há décadas pelo professor Sérgio Westphalen observando dados climáticos e de composição da uva no Estado e em vários anos na Serra Gaúcha. Toda vez que este índice ficava acima de 2, se tinha uva ótima. Não vi os dados deste ano, mas pode ter dado acima de 10 em algumas regiões, o que seria, de fato, excelente, e talvez a melhor safra registrada”.

Para o vinhateiro, a despeito da primavera chuvosa, que atrapalhou um pouco, “de dezembro em diante tivemos clima mediterrâneo: muito sol, calor e noites amenas. Esta combinação é o que a uva precisa para bem amadurecer.” Outro produtor de vinhos autorais, o gaúcho James Martini Carl, que teve recentemente o seu espumante Bigorna da Sapiência contemplado com 92 pontos no prestigioso guia sul-americano Descorchados, também acredita no potencial extraordinário da última safra. “Em razão do período seco durante a maturação das uvas tivemos maior concentração de açúcar, casca mais grossa e aumento de polifenóis, e isso vai se refletir nos vinhos. Perdemos um terço da produção de uvas, mas a qualidade da fruta é impressionante.”

Matéria-prima de qualidade é a base de qualquer bom vinho. Há um ditado que diz que o enólogo até pode fazer vinho ruim com uva boa, mas jamais fará um bom vinho com uva ruim. Como a natureza colaborou, os vinhos da safra 2020, que começarão a chegar ao mercado ainda este ano (espumantes, brancos e tintos leves) e pelos próximos dois anos (tintos mais encorpados e longevos), já deverão confirmar as expectativas otimistas do setor. Seguramente, teremos vinhos com maior teor alcoólico, mais cor, mais taninos e aromas mais complexos – tudo o que qualquer enófilo deseja. Um brinde, portanto, à safra 2020!

 

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